Requiem para um podcast

Um podcast é barato e relativamente fácil de produzir. Tecnicamente, é preciso ter pouca coisa e gastar pouco dinheiro para que, no mínimo, a qualidade de som seja boa e que a distribuição seja feita por todas as plataformas. Humanamente, é mais desafiante porque, sendo a solo é necessário coordenar o resto da vida com o tempo para produzir, gravar, editar e publicar o podcast; sendo em grupo, é necessário conjugar agendas e interesses, garantindo alguma linha editorial para que haja adesão do público.

Um qualquer grupo de amigos, ou uma pessoa que se aborreça e queira falar para o vazio, ou essa pessoa que acha ter interesse suficiente para se partilhar com o mundo, podem produzir um podcast. Podem e devem. Têm o direito de se expressar e o dever de partilhar algo que julguem de interesse para a caldeirada cultural do meio. Se efectivamente é interessante ou não, o público o julgará.

Por ser barato e relativamente fácil de produzir, é também fácil de descartar. Quantos podcasts estão no limbo, sem actualizações por falta de interesse dos seus autores? (Bom, na realidade sei apenas de um nestas condições – este podcast que aqui elegiamos)

Quantos podcasts são inconstantes, sem interesse, ridículos até? (Mais uma vez, este podcast entra nestas categorias)

Quantos podcasts definham em servidores por esse mundo fora, sem serem escutados? (Não é preciso fazer mais parêntesis, certo? Já perceberam a ideia)

Aquilo que me proponho a fazer (e já fiz) é enterrar este podcast, Não Há Vacas Sagradas. (Vá, só mais este. O podcast em si não é uma vaca sagrada, daí ser sacrificado)

Não quero continuar a ocupar espaço indevidamente e imerecidamente (contrariando o que disse no início) com este podcast. Começou com conversas de amigos que aconteceriam normalmente numa noite de copos. Como muitos podcasts, arrogámo-nos a pensar que estas conversas poderiam ter mais interesse para além dos seus intervenientes.

Foi divertido fazê-lo. Foi frustrante deixá-lo definhar.

Como com qualquer projecto inacabado ou que vai ficando na prateleira “para um dia destes”, foi perdendo o corpo. A cada dia perdia mais substância. A cada dia ficava mais afastado de quem somos hoje, de como nos vemos. Não há progresso porque não há continuidade. Há apenas um bloco passado – o podcast – e um bloco presente, entre os quais existem 2 anos de diferença. E quanto não mudamos em 2 anos?

Ainda me arroguei a pensar que poderia usar o feed para fazer experiências. Produzi uma pequena série semanal sobre os meus Traumas de Infância. Escusado será dizer que grande parte do conteúdo é ficcional, embora baseado em episódios reais da minha infância.

Foi o meu primeiro empreendimento no humor. Amador como sempre, não lhe dei continuidade, bloqueando a possibilidade de evoluir, de melhorar, de estabelecer alicerces mais sólidos para futuros projectos. Hoje olho para esta série e penso que poderia ter feito melhor, mas também não está assim tão mau para um principiante. Ainda assim, vou desligá-lo da máquina.

Fecho este requiem sem o peso com que o iniciei. A catarse está feita, o podcast retirado das plataformas. O seu legado viverá aqui.

O blog vai-se manter vivo. Sempre que me apetecer ou tiver necessidade, vou escrever. Mais ou menos sério, com mais ou menos humor (ou tentativa de humor). Não sei. A página é minha, ninguém me obriga a escrever, posso fazer o que quiser, inclusive nada. É o meu pequeno canto onde posso dizer o que quero sem ninguém ler. E estou confortável com isso.

Se quiserem falar comigo (as duas pessoas que vão ler isto, sendo que uma sou eu, já que estou a escrever), podem fazê-lo pelo email naohavacassagradas@gmail.com.

Até à próxima,

João Frade

Regresso do regresso?

O projecto “Não há vacas sagradas” foi um resultado de várias conversas remotas que divertiam quem participava nelas. Partilhámos esse divertimento com o mundo (pelo menos, com quem se cruzou, sem querer, connosco ou com quem foi vítima de SPAM nosso).

Parece um lugar-comum. Amigos juntam-se, falam de vários temas, riem-se e concluem que fazem um favor ao mundo em partilhar as suas conversas. Admitidamente o fizemos. Não tivemos sucesso, nem isso era o objectivo.

No entanto, como muitos projectos que nascem de impulsos, o entusiasmo foi esmorecendo. A coordenação de agendas para gravar, a disponibilidade e energia para editar, os pormenores da publicação, tudo isto era divertido ao início. Tornou-se um tormento.

Também amadores fomos na despedida: não houve. Talvez não quisessemos admitir que o projecto tinha morrido. Talvez quisessemos pensar que, no próximo mês, vamos ter mais tempo e voltar a gravar. Provavelmente, sabíamos que não voltaríamos mas, tipicamente desprendidos, deixámos apenas cair. Felizmente, o facto de não termos seguidores poupa-nos a frustração de os desapontar.

A solo, fiz um esforço individual para colocar em prática algo que pensava ser interessante, utilizando um feed existente. Tornou-se em mais um exercício fútil de fazer algo para sublimar o quotidiano. O segmento (se lhe podemos chamar assim) “Traumas de infância” foi uma tentativa de humorizar e racionalizar a percepção sempre distorcida de acontecimentos da infância que nos marcam. O intuito de intorduzir humor foi distorcido em algo mais obscuro e quase terapêutico. Mais uma vez, o peso dos dias se sobrepôs e, também este mini-projecto, se finou.

Então o que é isto agora? É um regresso? É um teaser? Ou é uma despedida final e formal.

Não sei. O meu desejo é que seja um teaser para algo novo. O projecto inicial parece tão distante no tempo que acredito que fosse algo completamente diferente hoje. Não me envergonho com o que fiz e disse, não me arrependo. No entanto, hoje já não concordo com algumas das coisas que disse. Já não vejo o mundo sem vacas sagradas.

Agora entramos na parte cliché (como se, até aqui, não o fosse também). Senti necessidade de escrever este post por duas razões:

  • Porque recebi um email do WordPress a indicar que o meu cartão de crédito para pagar o domínio e o plano não estava autorizado;
  • Porque me deparei com um poema do Bukowski que me fez pensar sobre o que quero fazer.

A primeira razão é fácil de tratar: vai-se à vida o domínio e o plano pago porque vamos entrar na pior crise das nossas vidas.

A segunda é difícil de lidar. O poema do Bukowski é o “Go all the way”. Para quem não conhece, fica aqui o poema.

If you’re going to try, go all the way. Otherwise, don’t even start. This could mean losing girlfriends, wives, relatives and maybe even your mind. It could mean not eating for three or four days. It could mean freezing on a park bench. It could mean jail. It could mean derision. It could mean mockery — isolation. Isolation is the gift. All the others are a test of your endurance, of how much you really want to do it. And, you’ll do it, despite rejection and the worst odds. And it will be better than anything else you can imagine. If you’re going to try, go all the way. There is no other feeling like that. You will be alone with the gods, and the nights will flame with fire. You will ride life straight to perfect laughter. It’s the only good fight there is.

Go all the way, Charles Bukowski

Coloquei o poema como quote apenas para ver como ficava. Tenho de aproveitar os recursos do site, se não mais vale cancelar já o plano pago (ainda não decidi se vou deixar de pagar… O meu lado burguês diz-me que posso pagar um domínio, mesmo que não o utilize).

Este poema fez-me pensar se alguma vez na vida, em todas as actividades que fiz, fui mais fundo do que apenas a fase de “experimentar e ver o que dá”. Conclusão óbvia: não. A questão seguinte que coloquei desafiou-me: posso pegar no site e utilizá-lo para escrever variadas coisas em diferentes registos? Conclusão óbvia: sim. Mais uma questão: e vou fazê-lo com regularidade, sem me preocupar com feedback e com aceitação? Conclusão óbvia: não. Última questão: então e ainda assim acho que vale a pena fazê-lo? Conclusão óbvia: sim.

É aqui que me afasto da ideia expressada no poema do Bukowski: se não for para tomar um compromisso sério com a arte, mais vale nem começar. Acredito que é possível ter uma relação à distância com a arte, se o objectivo não for o reconhecimento e a validação externa. Se o objectivo for a pura partilha, o exercício da técnica, o treino e a prática, não é necessário ir a fundo. Tem de haver uma avaliação regular sobre se faz sentido continuar ou não. Mais, a dedicação à arte tem as suas vítmas e eu não estou disposto a sacrificá-las.

Esta posição tem conclusão óbvia: fracasso e abandono; frustração e inércia; vergonha e sentimento de fraude.

Neste momento, estou a dedicar-me à escrita de stand-up. Tenho vários textos escritos, quatro actuações em que metade tiveram bons resultados e metade foram desastrosas, e a paixão pueril de querer fazer mais pessoas rirem com o que digo. Não vou fazer deste site o meu “blog de bits”. Vou utilizá-lo como uma ferramenta de análise.

Estamos, como sociedade, a começar um processo definidor das próximas décadas. Uma pandemia veio, em poucas semanas, lembrar-nos que não somos uma espécie divina e que as catástrofes batem à porta de todos. Assim, o site também irá ter reflexões sobre o que se passa e como se passam estes dias.

Vai haver conteúdo sério, sarcástico, cáustico, palerma e idiota. Todo misturado porque não sei falar de coisas sérias sem ver o humor que há na tragédia, nem utilizar o humor sem ver qual a realidade por trás de uma simples piada.

Vou manter o podcast vivo no feed. Vai ser o meu “memento mori”. Tenho outros projectos de podcasts (pelo menos dois em conversações, sem ambição de sucesso mas apenas para divertimento) mas, a surgirem, vão ter um feed diferente, sejam a solo ou colectivos.

Vou manter o site vivo, com ou sem domínio, com ou sem plano pago. Tenho direito ao meu espaço e vou utilizá-lo. Se assim se justificar, haverá convidados externos. Sem promessas nem propostas.

Vamos experimentar e ver se dá.

Trauma 5 – Toalhas de banho partilhadas

Olá pessoas, esta semana falamos de toalhas de banho partilhadas. Pode parecer um trauma estúpido (como todos os outros) mas depois de o ouvirem o vosso próximo banho não vai ser igual aos outros.

Neste episódio, vão ouvir a frase mais significativa que alguma vez na história disse a um filho. Não vamos spoilar o climax do episódio, apenas podemos revelar isto: é profunda, tem classe e ainda hoje é marcante.

Este episódio veio com duas semanas de desfasamento relativamente à expectativa do seu lançamento. E por isto, não pedimos desculpas porque fazemos o que queremos.

Até para a semana!

A edição é de João Frade.

O jingle de abertura foi produzido por Pedro Gancho.

Para ouvir este episódio, visitem a página Legado das Vacas Sagradas

Querem falar connosco? naohavacassagradas@gmail.com